Laboratório da Samsung imita unicórnios do Vale do Silício

Antes, os funcionários da Samsung Electronics Co. que pensavam em produtos criativos fora dos negócios principais da empresa muitas vezes viam suas ideias serem soterradas pela burocracia e pela inércia.

A resposta, neste ano, quando um engenheiro desenvolveu uma pulseira para evitar a espionagem, foi muito diferente: a Samsung o ajudou a criar sua própria empresa.

A medida deu a Choi Hyun Chul espaço e recursos para desenvolver o TipTalk, que transmite conversas com a pressão de um dedo sobre a orelha.

O dispositivo poderá ter um reflexo limitado sobre a indústria dos aparelhos de vestir, mas seu desenvolvimento sinaliza uma mudança sísmica na cultura notoriamente unidimensonal da Samsung.

O domínio mantido há anos pela Samsung no setor de smartphones está perdendo força à medida que os dispositivos se tornam mais semelhantes entre si, com diferentes fabricantes utilizando os mesmos componentes e o mesmo software da Google Inc.

A empresa sul-coreana precisa de um novo sucesso, por isso está tirando uma lição do manual do Vale do Silício ao conceder a cerca de 350 engenheiros a oportunidade de trabalhar em seus próprios empreendimentos em uma incubadora interna chamada Creative Lab.

“Os conglomerados empresariais sul-coreanos devem estar sentindo que atingiram o limite, por isso precisam de alguns novos insumos para conseguir resultados melhores”, disse Choi Yang Hee, ministro da Ciência da Coreia do Sul. “Por meio do C-Lab a Samsung está recorrendo a novos motores do crescimento para si”.

Para a Samsung, isso significa permitir que esses trabalhadores tirem pelo menos um ano de licença de seus trabalhos diários para se dedicarem a cerca de 100 projetos.

Entre as ideias estão o TipTalk; um dispositivo inserido no calçado para monitorar a postura e a pisada; um aparelho com Bluetooth que te ajuda a aprender a tocar violino; e um sensor que prevê derrames cerebrais.

1.100 ideias

Choi atualmente é o CEO da Innomdle Lab e está trabalhando para levar o TipTalk ao mercado neste ano. O projeto dele sobreviveu a uma competição entre 1.100 ideias e é um dos primeiros a se separar para formar uma empresa independente.

Os funcionários que lançarem uma startup poderão voltar aos seus empregos na Samsung se seus negócios fracassarem dentro de cinco anos.

A Samsung não tinha outra opção. A empresa suportou dois anos de quedas nas vendas dos smartphones Galaxy devido à concorrência mais dura do iPhone e a uma enxurrada de aparelhos chineses mais baratos que rodam o Android.

As ações registram baixa de 3,2% neste ano e caminham para o terceiro declínio anual seguido. As unidades de telefonia e chips respondem por dois terços das receitas e por 90% dos lucros da empresa.

O C-Lab, que fica no parque de escritórios da sede da Samsung, faz parte de um orçamento de US$ 13 bilhões para pesquisa e desenvolvimento.

Há planos em andamento para a abertura de outro espaço próximo ao complexo da Samsung em Seul e na Universidade Nacional de Seul, a mais prestigiosa do país.

A Samsung terá um desafio maior nos próximos anos para manter sua participação de mais de 20% em vendas globais de smartphones e os lucros vão na mesma toada, disse a Standard Poor’s em um e-mail, em 16 de novembro. É isso que está estimulando a iniciativa em prol das ideias diferenciadas do C-Lab.

Violinos

“Em uma empresa de hardware, a cultura é voltada à precisão na engenharia, o que exige disciplina e processos rígidos”, disse Cyrus Mewawalla, diretor-geral da CM Research, com sede em Londres, por e-mail.

“O que a Samsung necessita agora é ser mais criativa por natureza e isso exige mais liberdade”.

Uma startup chamada Jamit criou sensores que, quando colocados no cavalete de um violino, transmitem informações de desempenho a um aplicativo móvel que mostra quando são tocadas notas incorretas. Jeon Dae Young, 40, desenvolveu o sistema porque as aulas de sua filha eram muito caras. Seu empreendimento poderá ser separado no mês que vem.

“Em outras divisões da Samsung todas as decisões são tomadas pelos principais gerentes”, disse Jeon, que trabalhou 11 anos na empresa. “No C-Lab, você sente que está administrando sua própria empresa”.